Sonetto da Montevideo

SONETO DE MONTEVIDÉU

Não te rias de mim, que as minhas lágrimas
São água para as flores que plantaste
No meu ser infeliz, e isso lhe baste
Para querer-te sempre mais e mais.

Não te esqueças de mim, que desvendaste
A calma ao meu olhar ermo de paz
Nem te ausentes de mim quando se gaste
Em ti esse carinho em que te esvais.

Não me ocultes jamais teu rosto; dize-me
Sempre esse manso adeus de quem aguarda
Um novo manso adeus que nunca tarda

Ao amante dulcíssimo que fiz-me
À tua pura imagem, ó anjo da guarda
Que não dás tempo a que a distância cisme.

§

Non ridere di me, che le mie lacrime
sono acqua per i fiori che hai piantato
nel mio essere infelice; e questo gli basti
per amarti sempre più e più.
Non ti dimenticare di me, che hai rivelato
la calma al mio sguardo ermo di pace
e non allontanarti da me quando sarà esaurito
in te quell’affetto in cui ti disperdi.
Non nascondermi mai il tuo viso; dimmi
sempre quel tenero addio di chi attende
un nuovo tenero addio che non tarda mai
per l’amante tuo dolcissimo che si è rifatto
alla tua pura immagine, o angelo custode
che non dai il tempo alla distanza di incaponirsi.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

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Published in: on aprile 12, 2016 at 07:33  Comments (1)  

Resta soprattutto

RESTA ACIMA DE TUDO

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita como silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometerse sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

§

Resta, al sommo di tutto, questa capacità di tenerezza
Questa perfetta intimità con il silenzio
Resta questa voce intima che chiede perdono di tutto:
– Pietà! perché essi non hanno colpa d’esser nati…

Resta quest’antico rispetto per la notte, questo parlar fioco
Questa mano che tasta prima di stringere, questo timore
Di ferire toccando, questa forte mano d’uomo
Piena di dolcezza verso tutto ciò che esiste.

Resta quest’immobilità, questa economia di gesti
Quest’inerzia ogni volta maggiore di fronte all’infinito
Questa balbuzie infantile di chi vuol esprimere l’inesprimibile
Questa irriducibile ricusa della poesia non vissuta.

Resta questa comunione con i suoni, questo sentimento
Di materia in riposo, questa angustia della simultaneità
Del tempo, questa lenta decomposizione poetica
In cerca d’una sola vita, una sola morte, un solo Vinícius.

Resta questo cuore che brucia come un cero
In una cattedrale in rovina, questa tristezza
Davanti al quotidiano; o quest’improvvisa allegria
Di sentir passi nella notte che si perdono senza memoria…

Resta questa voglia di piangere davanti alla bellezza
Questa collera di fronte all’ingiustizia e all’equivoco
Questa immensa pena di se stesso, questa immensa
Pena di se stesso e della sua forza inutile.

Resta questo sentimento dell’infanzia sventrato
Di piccole assurdità, questa sciocca capacità
Di rider per niente, questo ridicolo desiderio d’esser utile
E questo coraggio di compromettersi senza necessità.

Resta questa distrazione, questa disponibilità, questa vaghezza
Di chi sa che tutto è già stato come è nel tornar ad essere
E allo stesso tempo questa volontà di servire, questa contemporaneità
Con il domani di quelli che non ebbero ieri né oggi.

Resta questa incoercibile facoltà di sognare
Di trasformare la realtà, dentro questa incapacità
Di non accettarla se non come è, e quest’ampia visione
Degli avvenimenti, e questa impressionante

E non necessaria prescienza, e questa memoria anteriore
Di mondi inesistenti, e questo eroismo
Statico, e questa piccolissima luce indecifrabile
Cui i poeti a volte danno il nome di speranza.

Resta questo desiderio di sentirsi uguale a tutti
Di riflettersi in sguardi senza curiosità e senza storia
Resta questa povertà intrinseca, questa vanità
Di non voler essere principe se non del proprio regno

Resta questo dialogo quotidiano con la morte, questa curiosità
Di fronte al momento a venire, quando, di fretta
Ella verrà a socchiudermi la porta come una vecchia amante
Senza sapere che è la mia ultima innamorata…

Resta questo sforzo costante di camminare dentro il labirinto
Questo eterno alzarsi dopo ogni caduta
Questa ricerca di equilibrio sul filo del rasoio
Questo terribile coraggio prima del grande timore e questo timore
Infantile di avere un piccolo coraggio.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

Published in: on febbraio 21, 2014 at 06:55  Comments (2)  

Tenerezza

TERNURA

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

§

Io ti chiedo perdono di amarti all’improvviso
Benché il mio amore sia una vecchia canzone alle tue orecchie,
Delle ore passate all’ombra dei tuoi gesti
Bevendo nella tua bocca il profumo dei sorrisi
Delle notti che vissi ninnato
Dalla grazia ineffabile dei tuoi passi eternamente in fuga
Porto la dolcezza di coloro che accettano malinconicamente.
E posso dirti che il grande affetto che ti lascio
Non porta l’esasperazione delle lacrime nè il fascino delle promesse
Nè le misteriose parole dei veli dell’anima…
È una calma, una dolcezza, un traboccare di carezze
E richiede solo che tu riposi quieta, molto quieta
E lasci che le mani ardenti della notte incontrino senza fatalità lo sguardo estatico dell’aurora.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

Published in: on luglio 8, 2013 at 07:23  Comments (1)  

Di un minuto, l’eternità

DE UM MINUTO A ETERNITADE

Um minuto o nosso beijo
Um só minuto, no entanto
Neste minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quantas mortes sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!…
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

§

Un minuto il nostro bacio
un solo minuto; tuttavia
in questo minuto di bacio
quanti secondi di stupore!
Quante madri e spose pazze
per il dramma di un momento
quante migliaia di bocche
urlano di patimento!
Quanti bambini nascono
per presto morire
quanta carne lacerata
quanta morte per la vita!
Quanti saluti effimeri
diventano l’ultimo addio
quante tibie, quanti femori
quanta follia di Dio!
Che mondo di non amate
con le speranze perdute
che folla di annegate
che giardino di suicide!
Che mare di visceri scorre
di corpi infiacchiti
che scontro di treni orrendo
quanti morti e feriti!
Che decimazione di malati
che ricevono l’estrema unzione
quanto sangue sparso
dentro il mio cuore!
Quanti cadaveri soli
sul tavolo dell’obitorio
quante morti senza affetto
quanti diari funerei!
Che branco di prigionieri
a cui strappano le unghie
quanti baci estremi
quanti morti sulle strade!
Che messe di uxoricidi
con proiettili, pugnali o con le mani
quante donne percosse
quanti denti sul pavimento!
Che mucchio di nascituri
buttati nella boscaglia
quanti feti negli immondezzai
quante placente nei fiumi!
Quanti morti a faccia a faccia
quanti morti a tradimento
quanti morti all’improvviso
quanti morti senza ragione!
Quale cancro surrettizio
il cui domani sarà tardi
quante tare, quanti vizi
quanti infarti del miocardio
quanta paura, quanto pianto
quanta passione, quanto lutto!…
Tutto questo per l’incanto
di quel bacio di un minuto:
di quel bacio di un minuto
ma che crea, nel suo trasporto
di un minuto, l’eternità
e la vita, da tanta morte.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

Published in: on aprile 14, 2013 at 07:21  Comments (1)  

Questo infinito amore

ESTE INFINITO AMOR

Este infinito amor de um ano faz
que é maior do que o tempo e do que tudo
este amor que é real, e que, contudo
eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu inesperado
e que dentro do drama fez-se em paz
este amor que é o túmulo onde jaz
meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
noturno, interminável e tardio
a deslizar macio pelo ermo
e que em seu curso sideral me leva
iluminado de paixão na treva
para o espaço sem fim de um mar sem termo.

§

Questo infinito amore di un anno fa
che è più grande del tempo e di tutto
questo amore che è reale, e che, tuttavia
io non credevo esistesse più.

Questo amore che è sorto insospettato
e che nel dramma si è fatto in pace
questo amore che è il tumulo dove giace
il mio corpo per sempre sotterrato.

Questo amore mio è come un fiume; un fiume
notturno, interminabile e lento
che scivola morbido nell’eremo
e che nel suo corso siderale mi porta
illuminato di passione nell’oscurità
verso lo spazio senza fine di un mare senza termine.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

Published in: on luglio 30, 2012 at 07:10  Comments (5)  

Sonetto dell’amore totale

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor … não cante

O humano coração com mais verdade …

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

§

Ti amo tanto, amore mio …
non canti il cuore umano
con maggiore verità ….

Ti amo come amico e come amante
in una sempre diversa realtà.
Ti amo per affinità,
di un quieto amore prestante
e ti amo al di là,
presente nella nostalgia.

Ti amo, infine, con grande libertà
per l’eternità e a ogni istante.
Ti amo come un animale, semplicemente
di un amore senza mistero e senza virtù
con un desiderio massiccio e permanente.

E amandoci così, molto e sempre
un giorno nel tuo corpo all’improvviso
morirò per aver amato più di quanto ho potuto.

MARCUS VINICIUS DE MORAES

Sonetto della rosa tardiva

SONETO DA ROSA TARDIA

Como uma jovem rosa, a minha amada…
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que es pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa…

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida ?
Ela é rosa, poeta… assim se chama…
Sente bem seu perfume… Ela te ama…

§

Come una giovane rosa, la mia amata…

bruna, bella , snella, ombrosa

sembra il fiore colto, ancora coperto di rugiada

nell’istante in cui sta per diventare rosa.

Ah, perchè non la lasci intoccata

poeta, tu che sei padre, nella misteriosa

fragranza del suo essere, fatto di ogni

cosa tanto fragile che completa la rosa…

Ma (mi dice la Voce) perchè lasciarla sullo stelo

ora che è rosa commossa

di essere nella tua vita quel che hai cercato

così dolorosamente lungo la vita?

Lei è rosa, poeta…così si chiama…

senti bene il suo profumo…Lei ti ama…

MARCUS VINICIUS DE MORAES